sábado, 12 de setembro de 2009

Especialistas vêem crise mundial como oportunidade para consolidação do sistema de CT&I e desenvolvimento regional

Ciência e Tecnologia - Notícias
03-09-2009
Publicado em: Jornal da Ciência 02/09/09por Daniela Oliveira
A ciência, a tecnologia e a inovação como vetores do desenvolvimento regional foi tema de mesa-redonda realizada nesta terça-feira, durante o seminário "Crise mundial e desenvolvimento regional: desafios e oportunidades para o Brasil", promovido pelo BNDES, pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e pelo Ministério da Integração Nacional.O presidente da Finep, Luis Fernandes, ressaltou que as ações para enfrentamento da crise incluíram, em grande parte das nações, investimento público para criação de demanda efetiva e medidas de garantia de acesso ao crédito. No entanto, nem todos os governos adotaram o investimento em CT&I - dimensão por ele considerada crucial - como forma de acelerar a recuperação pós-crise. "Embora seja um chavão dizer que qualquer crise é também oportunidade, a capacidade de conjugar instrumentos anti-cíclicos com maior investimento em ciência, tecnologia e inovação para aumentar a competitividade das empresas nacionais de fato situa melhor os países no processo de recuperação da crise", avaliou Fernandes.O Brasil, no entanto, convive com o dilema de ter que se confrontar tanto com a assimetria internacional na área de CT&I, que exige esforço concentrado, como com as desigualdades internas, resultantes da concentração, no eixo Sul-Sudeste, da capacidade científica e tecnológica de excelência."Esse é um desafio para a política pública. Temos que maximizar a eficiência de decisões de investimento para o desenvolvimento nacional com base na C&T, confrontando as assimetrias existentes no sistema internacional, mas, ao mesmo tempo, não podemos aceitar a grau de concentração dentro do país", afirmou o presidente da Finep.Segundo Fernandes, o Brasil tem enfrentado este dilema com ações que visam à efetiva consolidação do sistema nacional de C&T, e também por meio da indução de programas voltados às áreas menos desenvolvidas. Ele citou os editais de apoio à melhoria da infra-estrutura física de pesquisa (Pro-Infra) e de subvenção econômica da Finep, ambos com percentuais mínimos de atendimento às regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, bem como as parcerias com os governos e instituições estaduais.Para o físico Ennio Candotti, coordenador do Museu da Amazônia (Musa) e ex-presidente da SBPC, é necessário que se implementem políticas mais voltadas às demandas dessas regiões. Ele salienta que os projetos nesse sentido ainda são julgados de forma conservadora."A discussão sobre o que é importante nessas regiões é uma questão que exige uma visão mais ampla do que seja desenvolvimento científico. Ainda não conseguimos equacionar isso devidamente, Os parâmetros de excelência são sempre levantados, com razão, mas não se abrem para novas áreas, que em algumas regiões são importantes", adverte, citando áreas que poderiam ser foco de investimento na Amazônia, como o transporte hidroviário e o estudo meteorológico.Candotti ressalta ainda a necessidade de criação e recuperação da infraestrutura nas regiões menos desenvolvidas como forma de atração de recursos humanos especializados, bem como a urgência na melhoria da educação. Segundo ele, o país não tem quadros suficientes para atender aos vetores apontados - em conferência anterior - pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, como oportunidades futuras: petróleo e gás, energia, logística, agronegócio e habitação (leia matéria nesta edição)."A formação de pessoal me parece ser o calcanhar de Aquiles dessas frentes sinalizadas por Luciano Coutinho. E não apenas a formação de doutores, mas principalmente a formação de técnicos de nível médio. Precisamos de uma frente de ação voltada para esta questão", observou.Participaram também do debate Glauter Rocha, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), e José Cassiolato, do Instituto de Economia da UFRJ.